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Coronavírus, vida e aglomerações

O mundo seguia aparentemente normal. A China assustava os Estados Unidos com o seu poder econômico. Politicamente, quem fazia o bem, fazia; péssimos governos, seguiam suas sendas iníquas. O mundo, que há tantos milênios convive com doenças endêmicas, como a tropical malária e outras mazelas mais jovens, de repente foi despertada para uma nova ameaça, provinda justamente da China.É impressionante como a vida é frágil. É impressionante como um vírus tem o poder de fazer o mundo repensar o significado de nossa existência sobre o globo terrestre. A Itália sitiada. Bilhões sendo gastos com pesquisas e medidas profiláticas. Bilhões sendo perdidos pela economia das nações. Um vírus está acordando o mundo do sono do consumismo. A ameaça é invisível a olho nu. Olhando a aparência do Covid-19 sob o microscópio, eis algo bonito de se ver, beleza mortal para alguns, capaz de derrubar os mercados mais fortes.Ouvimos falar de medidas drásticas para eliminar infectados em países ditatoriais. Não duvidamos. Quem é sujo, suje-se ainda mais; quem é bom, pratique virtudes, eis o epílogo apocalíptico. Mas, acho impressionante a insistência de alguns. Seria oportuno o Brasil sair às ruas 15 de março enquanto milhões estão em quarentena no mundo? Não seria isto um gesto irresponsável, que pode ajudar a propagar um vírus pior do que a endêmica corrupção política em nosso país? Não seria hora de nossas autoridades estarem unidas em prol do bem comum, agitando suas bandeiras partidárias em prol da vida?Realmente, é assombroso constatar que alguns morrerão tratando o mundo de maneira errada. É assombroso que, perante a oportunidade de fazer o bem, haja quem opte por seguir errando, vivendo de forma egoística, sem respeitar nada, inclusive a vida. Um vírus chegou para nos acordar de nossos caprichos políticos, pois ninguém está livre da ameaça. Morre rico, morre pobre. Todos nós deveríamos permitir que nos acorde, porque a vida não é primariamente política, arte, religião ou qualquer outra coisa: a vida é uma respiração. Não é prudente entrar em aglomerações no momento.

Publicado no jornal O Liberal em 10/03/2020

Rui Raiol é escritor