ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O risco de mexer com a democracia

Desde que o mundo existe, a amizade com um governante traz benefícios e riscos. Nos antigos sistemas totalitários, ser amigo do rei implicava sorte ou azar. Dependendo do grau de cumplicidade entre servo e senhor, tal amizade figurava ora como salvo-conduto, ora como sentença de morte. Por sua natureza, a amizade leva-nos a compartilhar segredos e, em se tratando de poder político, nada se impõe acima do poder de império. Jamais o poder ficar refém de um ser humano fora do círculo fechado desse poder. Nem mesmo filhos, irmãos e cônjuges escaparam da morte quando o representante máximo do estado sentiu-se em algum instante refém de terceiros. Lemos muito sobre isto na Antiguidade e Idade Média. Ouvimos murmúrios atuais em regimes autoritários.Há um grande risco em nos aproximarmos demais do estado. Pessoas físicas e instituições terminarão tragadas pela força centrípeta estatal, sempre disposta a mandar para o pélago frundo quem representar uma séria ameaça. Duas forças prevalecem no mundo desde o começo: política e religião. Juntas no passado, formavam o poder supremo concentrado em mão humana, pois, em falhando o imperativo normativo, soberanos invocavam leis e oráculos divinos para mandar para morte os seus desafetos, muitos dos quais amigos de outrora, como dissemos.Mais existia um risco maior: a sucessão do poder. Das páginas da Bíblia nos vêm os exemplos de Israel e do próprio Cristo. Tendo José chegado ao Egito em condições amistosas durante a invasão da terra do Nilo pelos hicsos, depois de certo tempo, levantou-se um novo rei. De repente, o povo do honrado governador do Egito tornou-se escravo de faraó.A separação entre Igreja e Estado é uma regra que busca salvaguardar ambas as forças. Porquanto tenham, em sua essência, leis e propósitos diversos, cada qual deve ter plena liberdade de existência independente, porque, se a religião se atrelar ao Estado, este torna-se sectário, sendo mais benéfico com a  religião albergada, ao passo que a religião perderá sua razão de ser espiritual, tornando-se mero braço do organograma do poder estatal.Por estes motivos, não se deve mexer com a democracia. Por isso, Igreja deve ser Igreja e Estado deve ser Estado. Estado, com seu poder de império. Igreja, com sua autoridade espiritual. Hoje, vemos uma cena muito perturbadora no Brasil com a aproximação exagerada – para não dizermos quase teísta – da igreja evangélica com o governo de Jair Bolsonaro. Confiados na amizade com o “rei”, pastores e leigos trabalham dia e noite para defender o Presidente, não importa que este acerte ou erre, como ocorre com todo ser humano. Porém, o risco de mexermos com a democracia persiste para nós, assim quanto no passado. Bolsonaro não ficará refém da religião, muito embora possa usá-la para governar e se reeleger. E, quando chegar o tempo da sucessão, seja daqui a seis ou oito anos, poderemos nos arrepender de mexer com a democracia, pois s sucessão do poder é o grande enigma dessa terrível fórmula política-religião. É isto que está acontecendo com a Venezuela, independentemente de bandeira de direita ou esquerda. Hugo Chávez morreu. As concessões do povo em prol desse amizade com o presidente produziram um efeito perverso. Queremos todas as instituições funcionando no Brasil, pois foi graças a isto que Bolsonaro se tornou presidente.
Rui Raiol é escritor 

Publicado no jornal O Liberal em 4/3/2020
www.ruiraiol.com.br