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O Carnaval de Bolsonaro

Bolsonaro não gosta de Carnaval, todos ficamos sabendo no terceiro mês de seu governo. Assim, escreveu Bolsonaro no Twitter em 5 de março de 2019, criticando um ato obsceno: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas próprias  conclusões.”  O post ganhou o mundo, recebendo críticas e elogios.Portanto, não era de se esperar atitude diferente agora. Ao longo do ano, Bolsonaro fechou as torneiras públicas para o rei Momo. Estaria certo o presidente? Bem, como quase tudo na vida, depende do prisma que olhamos o ato. Inicialmente, é bom lembrar que Carnaval é a festa da carne, é um tempo de quebrar regras, sem fazer aqui nenhum juízo de valor. Logo, não pensemos jamais em santificar o Carnaval, ele é profano, pecador, desregrado, eis a sua natureza.Quem olhar o Carnaval pelo ângulo da cultura, apenas por este, há de compreender que atividades culturais e folclóricas devem ser auxiliadas pelo poder público, afinal de contas o lazer é um direito constitucional e o Tesouro não é uma ficção tributária, mas um cofre onde todos nós, brasileiros, diariamente vemos nosso dinheiro ser compulsoriamente depositado.Porém, nada é tão simples assim para o administrador público. Penso que todo governo sério, em qualquer nível, há de sopesar causas e efeitos antes de proceder a qualquer dotação orçamentária, pois, justamente pelo fato de o dinheiro ser do povo, deve o mesmo ser empregado com finalidade que atinja o interesse público, interesse coletivo da sociedade.Todo ano, ouvimos falar que o Carnaval incrementará x ou y na economia do País. Contudo, ninguém apresenta a conta negativa depois da folia. Eu acredito que, apenas pelo frio cálculo matemático, o Carnaval deixa um saldo muito negativo. Ora, se a economia recebe de um lado com o turismo e consumo de bebidas e cigarros, por outro, temos uma nação paralisada por quase uma semana. Então, a propalada renda do carnaval compensa a produção industrial, serviços e comércio? Francamente, acho que não.Depois, o Carnaval deixa uma conta altíssima para os sistemas de saúde e previdenciário. Acidentes e mortes. Aumento do uso de entorpecentes. A nação cada vez mais se afundando no alcoolismo. Famílias destroçadas pela volúpia. Enfim, uma desgraça.Então, como o poder público deve lidar com algo assim e de natureza privada? Penso que deve adotar medidas de segurança e de saúde, que garantam quanto possível a integridade física dos foliões. Isto já é uma grande despesa, desnecessária, mas, vamos lá: contentemo-nos pelo fato de o dinheiro público ser “nosso”. Afora, essas medidas que devem existir em todo ajuntamento de pessoas, o governo não tem por que injetar dinheiro no Carnaval. Ora, meus amigos, estudamos no Direito que a Administração Pública rege-se pelos princípios da eficiência, da economicidade, da moralidade e da razoabilidade. Então, pergunta-se: onde estão estes princípios no poder público de uma nação com milhões sem casa própria, que vivem abaixo da linha da pobreza? Onde está a razoabilidade de o governo torrar orçamento com o que não é prioridade?

Publicado no jornal O Liberal em 25/02/2020
Rui Raiol Site: www.ruiraiol.com.br