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Pecado ecológico

Coube ao Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, realizado em Roma, a apresentação de mais um pecado ao mundo, o pecado ecológico, que nasce pela falta de atenção e devido tratamento aos ecossistemas. Considero a iniciativa como sábia observação da Igreja Católica quanto ao que vem sofrendo a Hileia nos últimos séculos, com agravamento em nossos dias.Sempre considerei uma contrassenso a omissão dos cristãos quanto às questões do meio ambiente. Ora, partindo de uma premissa criacionista, dilapidar e não proteger a natureza implica, via inversa, ofender ao próprio Criador e às criaturas que dividem conosco este espaço vital. É assim que aplaudo o novo conceito de pecado, pecado ecológico, pecado cujas consequências levam a humanidade a sofrer pela agressão do mundo natural.Isto não é uma ingerência incabível, mas o uso do pleno exercício das autoridades eclesiásticas. Sendo a Amazônia o maior campo eclesiástico da Igreja Católica, nada mais natural que Roma discuta, opine e aprove medidas ecológicas que entenda diretamente relacionadas aos ensinamentos cristãos.Como todos sabemos, todos os mandamentos foram reunidos pelo Cristo em apenas duas ordenanças: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, como a si mesmo. Condensando ainda mais estes mandamentos, resume-se tudo na palavra amor.Um exame rápido das Escrituras apontará que o homem é um tipo de administrador da natureza. Foi essa incumbência atribuída a ele desde o Gênesis. Neste livro, Adão surge como cuidador do mundo, quem deve dominá-lo, porém, nunca sem responsabilidade. Depois, esse dever-meio passa a ser entendido como instrumento de um bem maior, a vida. Os filhos do primeiro casal deveriam ter o dever de zelo mútuo, cobrando Deus isto do sanguinário Caim. “Onde está o teu irmão?” é um grito que ressoa o objetivo maior do dever de proteção atribuído ao homem.Espera-se que a Igreja Católica trace diretrizes que levem à consecução do relatório do sínodo. Espera-se que, embasados no documento canônico, cardeais, bispos e padres adotem uma conduta mais objetiva frente aos horrores a que está submetida a Amazônia.De igual sorte, espera-se que o seguimento evangélico acorde também. Como temos dito com frequência, ainda parece existir grande abismo entre o Deus adorado nos cultos e o histórico Criador do mundo. É assim que evangélicos devem enxergar o mundo pela ótica do Criador, não destruindo nem sendo imparcial ou conivente com aqueles que destroem a natureza.Estudando o livro de Salmos este semestre, vemos a grande harmonia que existia entre o pensamento antigo sobre a Divindade e o mundo físico. Poesias nasceram dessa percepção. Contemplando o mundo pelos olhos de Deus, crentes antigos enalteciam a obra da Criação, sua perfeição e importância, enxergando uma grande harmonia entre o que fora criado e o que restava posto perante o homem, vendo a natureza não como inimiga, mas enxergando-a como uma bênção.O pecado ecológico existe desde que o homem danificou com irresponsabilidade o primeiro item da obra perfeita de Deus. E, sem dúvida, é um dos pecados que mais se avolumam ao longo dos séculos.

Publicado no jornal O Liberal em 30/10/19


Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)