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A invenção da fé

Eu aguardava a hora da consulta médica do lado de fora e, enquanto apreciava a bela tarde de verão, duas senhoras aproximaram-se de mim e perguntaram se eu cria que o planeta Terra há de ser restaurado nos tempos apocalípticos e que a humanidade viverá aqui mesmo em perfeita paz com todas as espécies. Disse que preferia não responder. As duas insistiram. Fiquei calado. Elas repetiram a pergunta letra a letra pela terceira vez, então concluí que eu precisava dizer algo.           Não é de hoje que se discute a origem da fé. Para céticos, não foi Deus quem criou o homem, mas, este, deslumbrado perante o mundo, com muitas perguntas e poucas respostas acerca da vida, acreditou na existência de algo superior e, assim, paradoxalmente, teria criado o Criador. Nós, crentes na Divindade, repudiamos este raciocínio, considerando-o totalmente errado quanto ao Altíssimo, porém, não completamente falho perante o fenômeno geral de crenças.           Na filosofia jurídica, alguns argumentam que a justiça é um valor que se alcança por meio da fé. Normas objetivas existem apenas como instrumentos, signos, materialização da crença social. Além de todo o arcabouço jurídico, que envolva instituições e conhecimento normativo, a justiça prevalece como um ideal, um valor quase espiritual, algo que só passa a existir de verdade quando cremos nela. Aqui, claramente, a fé é uma força autônoma capaz de criar, de trazer à concretude o que não existe enquanto um “ser”, mas existe enquanto um valor.          Depois da insistência de minhas interlocutoras, respondi que as leis espirituais existem de modo absoluto e que não dependem da minha fé. Assim, se eu creio na existência de alguma coisa, e isso de fato existe no mundo espiritual, minha fé em nada toca ou altera a realidade transcendental. Todavia, se eu permaneço incrédulo e até combativo perante uma verdade assim, isto é, contra a existência de um ser ou de um evento além, minha incredulidade é ineficaz para alterar o que está abrigado por leis espirituais, muito superiores à minha capacidade cognitiva de crer ou negar.          Se o paraíso de fato existir – ou existisse, para os que se melindrem com o verbo no infinitivo – minha fé ou dúvida nada alteraria a realidade escatológica. Talvez eu apenas sofresse os efeitos da minha atitude, porém, a lei espiritual de uma Terra restaurada não está sujeita ao meu mundo de valores.      Assim, o fenômeno da fé pode nos levar a crer em coisas que existem ou não existem. Independentemente dessa realidade, podemos crer profundamente, porém, nossa crença não ser nada além de uma força mental e de uma explosão de emoções, sem eco algum na realidade em que acreditamos.        É assim que a fé, isoladamente considerada, segue um processo que não deve passar à margem da razoabilidade, estudo bíblico – no caso de cristãos – e muito senso crítico. Nenhuma forma de fé deve evitar o raciocínio. Pelo contrário, o apóstolo Pedro escreveu que devemos ter explicações racionais para quem nos perquirir sobre a nossa fé. Paulo, o Apóstolo dos Gentios, admoestou que o nosso culto também deve ser racional.

Publicado no jornal O Liberal em 9/10/19

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br