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A questão do parente divino

Não é de hoje que o homem busca um assento entre os deuses. Na mitologia grega, semideuses eram figuras intermediárias entre as divindades imortais e os seres humanos, heróis cujos feitos os tornaram diferentes da espécie terrena, muito embora provassem da morte como qualquer um de nós.

A nossa parca compreensão dos assuntos celestiais opera um tipo de infantilidade em matéria de fé. De repente, um céu azul recortado de nuvens branquinhas é um tipo de portal da morada da Divindade, que, assim, parece tão perto da gente.

Falando sobre essa dimensão, o apóstolo Paulo – que garante ter sido arrebatado até o Terceiro Céu, o Paraíso, facilitou o arranjo teológico que organiza o céu em três estratos: o primeiro céu, representado pela cobertura mais baixa da Terra até a atmosfera; o segundo, o Universo, gigante ainda incompreensível à mente humana; e o Terceiro Céu, a Glória celestial, de natureza espiritual, dimensão onde a Divindade pode ser encontrada em sua plenitude.

Mas, a fantasia do homem tenta colocar um parente divino no Céu. A Bíblia, maior autoridade em termos de fé cristã não apresenta a mínima ideia de mediadores entre Deus e os homens, exceto um, Jesus Cristo. E foi justamente Jesus, conversando durante uma noite com Nicodemos, que esclareceu a questão, em João 3.13: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele quem de lá desceu, a saber, o Filho do Homem”.

Foi assim que o Mestre fechou todo caminho de intercessores entre Deus e os homens. A declaração de Jesus parece apontar para uma impossibilidade “natural” do ser humano alcançar o Reino celestial antes que tenha chegado o fim e a prestação de contas de todos os homens. Essa impossibilidade parece ter a ver com a questão da morte, não sendo esta necessariamente verificada na vida deste ou daquela pessoa virtuosa, mas no fato de todo ser humano ser mortal, por mais santificado ou santificada que possa ser.

Na Parábola do Rico e Lázaro – não reputada doutrina por alguns devido ao gênero literário – lemos uma certa mediação. Mas, não é Deus quem está se comunicando com o rico avarento, é Abraão. Daí, por mais que alguma corrente hermenêutica simbólica enxergue aqui a pessoa divina representada pelo patriarca, não é isto que a Bíblia diz.

Nessa parábola, Abraão não é mediador, mas declara a existência de um “abismo” intransponível entre o espaço intermediário em que está – chamado de “seio de Abraão” – e o Hades, onde jaz o ricaço impiedoso. De igual sorte, não se cogita mediação para auxiliar os cinco irmãos do rico que ainda vivem, cuja única esperança, diz Abraão, é crerem na Lei e nos Profetas (isto é, Bíblia), não lhes valendo para a salvação nem o testemunho de alguém que ressuscitasse.

Todos os homens e mulheres que têm servido a Deus ao longo da história e concluíram suas santas jornadas esperam o grande Dia da Ressurreição. Escrevendo aos coríntios, o mesmo apóstolo Paulo afirma que mortos e vivos receberão corpos incorruptíveis naquele grande dia. Não há exceção a nenhum mortal, pois nos parece mesmo que isto é consequência direta da nossa natureza mortal.

Todos os nossos parentes que morreram em Cristo não podem interceder por nós, posto que ainda não foi bradada a vitória final sobre a morte, inimigo derradeiro a ser vencido. Não temos pai, mãe, filhos nem irmãos intercessores. Todos os homens, por mais santificados que tenham vivido, encerram as suas carreiras neste mundo. Foi assim que Paulo declarou que encerrava o seu combate e guardava a fé. Em nenhum momento, qualquer apóstolo aponta que, deixando este mundo, intercederia por nos. Em matéria de mediação, a única voz ainda é a do Mestre, Aquele que desceu do Céu: “Eu sou o Caminho”.

Publicado no jornal O Liberal em 18/9/19

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)