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O nome da letra

O vernáculo tem algumas curiosidades interessantes. Acostumamo-nos tanto com as palavras que nem notamos suas esquisitices. Vez ou outra, paro diante de uma palavra para examiná-la. Examino letras e sílabas, examino a sonoridade e, quanto mais repito o teste, mais esquisito fica o termo, até parecer-me estrangeirismo.

            Mas, hoje não quero examinar palavras, pelo menos não os termos usuais da última flor do Lácio. Tenho uma curiosidade pelas palavras que se formam para nominar as letras do nosso alfabeto. Raramente escrevemos o nome das letras. Raramente escrevemos porque rarissimamente precisamos disto. Então, vamos espiar como se escrevem as letras do alfabeto português. Vamos ouvir os sons engraçados que produzem. Nunca fiz isto. Deixei para dividir com você a emoção desta  maluca aventura.

            Nossa viagem começa com a letra a. Nenhum problema aqui. Exceto o acento, “á” é á e ponto-final. Com o “b”, a coisa muda. Bê escreve-se assim, com inicial maiúscula porque para mim é nome próprio. O “c” é Cê. Dê escreve-se assim, homógrafo e homófono verbal. A questão do “é” é mais séria porque alguns querem chamá-lo de “ê” para diferenciá-lo do verbo. Porém, o som é aberto nas duas situações. Não dissemos “a, ê, i, o, u” na escola, ou dissemos?

            Éfe é a grafia da letra cujo acento alguns querem tirar. “G” escreve-se Gê. Agá é o próximo da lista. É a letra que os escorões mais gostam de fazer. Depois, vem o “i”, minúsculo aqui de propósito. É uma letra que nunca cresce. Se for interjeição, ganha o Agá no fim: “iIhhh!!”, sem alteração do fonema, apenas exclamação. “J” escreve-se Jóta, nome de letra que muita gente personaliza para esconder João e José. K lembra chamada de bronca: “vem cá, menino!”, pois não suportamos o “k” nem no próprio nome da letra.

            “Éle” é quase ele, mas tem esse agudo na cabeça para que não vire pronome, pois nome é substantivo. O “m” com reticências lembra coisa fétida. Escreve-se: “Ême”. Tudo estranho, não acham? Quem já escreveu esse nome? É minha primeira vez, confesso. “Êne” parece primo do outro, um pouco mais magro e delicado, falando mais fino que o “m”. “O” escreve-se “ó”. Pode ser vocativo, mas interjeição fechada só se tiver “Agá”. Parece substantivo, mas não define nada, pronome. “Oh, glória!!!”, gritam os crentes.

            “P” é Pê e “Quê” escreve-se assim. Já o “Érre” é uma letra malvada, que faz tanta gente cair na pegadinha de não dobrá-lo entre vogais. “Me erra, Seu Érre, por favor!”. “S” me lembra de rede, e escreve-se “Ésse”, quase um demonstrativo. “T” atormenta à beça os querem ter a qualquer custo, escreve-se: “Tê”. U é u, sem mais nada junto. Se puser Agá exclamado no fim, a coisa pega! “Uhhh!!”

            Agora, vê como se escreve o “v”: escreve-se “Vê” mesmo. O “Dáblio” ninguém escreve, no máximo é uma letra chique. O “x” da questão é escrever “Xis”. Y é “Ípsilon”, aportuguesado, perdeu o “y”. E zebra escreve-se com “Zê”. E assim terminamos o nome da letra.

   Publicado no jornal O Liberal em 3/9/19

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)