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A guerra do homem contra a natureza

A guerra do homem contra a natureza existe desde que o homem levantou-se no mundo. A natureza chegou primeiro, mas isto nunca foi considerado como deveria. Seja no relato do Gênesis, seja na teoria darwinista, o homem sempre chega depois. Para a religião, surgiu o homem como obra-prima, a “coroa da Criação”, criado no sexto dia quando o jardim do Éden estava devidamente plantado. Para céticos, ateus e agnósticos que creem nos escritos de Darwim, o ser humano só aparece depois de uma longa cadeia evolutiva.

O mundo estava pronto quando o homem chegou. Nossa história é recentíssima perante os segundos de tempo astronômico que a Terra ocupa no grande relógio de formação do Universo. Nossa história é recente, desde que Deus disse “Haja luz” ou, para outros, quando o Big Bang irrompeu o gigantesco e massivo núcleo de massa e energia. De qualquer modo, para crentes e ateus, chegamos por último.

Embora milhões de seres vivam na Terra, somente o homem apresenta uma “necessidade” de transformar violentamente o mundo. O castigo divino a Adão já apontava essa necessidade de lavrar a terra, a fim de que o alimento humano proviesse do suor de seu rosto. Ocorre que, decorridos milhares de anos, o homem continua devastando o mundo, como se o resto da Terra permanecesse intocável além do remoto Éden.

Há apenas alguns séculos, o homem via a Terra como um gigante a ser domado. A natureza precisava ser conquistada. O mundo natural deveria ceder à inteligência industrial e comercial da humanidade. Florestas inteiras foram derrubadas. Pântanos foram aterrados. Muitas cidades hoje estão assentadas sobre um terreno movediço, caso de Belém, que para se erguer, soterrou ou reduziu a esgoto um intrincado complexo fluvial. Nessa visão enlouquecida, “estudiosos” chegaram a aconselhar a derrubada de florestas na América do Norte, a fim de que houvesse mais ventilação, porque consideravam que árvores atrapalhavam a circulação dos ventos. A natureza e seus ecossistemas precisavam ser vencidos, sob pena de o homem, tão sábio, permanecer sem progresso, sem futuro.

A “invenção” da natureza enquanto bem-comum da humanidade é pensamento recente. Foi o geógrafo Alexander von Humboldt quem, viajando durante anos aqui na Amazônia, derrubou essa crença. Índios e suas florestas não são objetos nocivos que precisam ser domesticados e, em último caso, dizimados para o bem-estar da humanidade, mas é justamente o contrário: o homem é fruto da natureza e, sem ela, haverá de perecer, pois não é máquina, mas um ser vivo, com necessidades de alimento, água e, fatalmente, oxigênio para respirar, além de uma boa camada de ozônio para defendê-lo dos terríveis efeitos da radiação solar.

É impressionante que hoje, geração da tecnologia, vejamos a Amazônia queimar, dizimando todo ser vivo nesse inferno e abalando o ecossistema do planeta, enquanto homens de terno e gravata travam uma batalha no Twitter. Lamentável que ainda não tenhamos compreendido que chegamos por último, mas deixaremos a Terra primeiro por nossa própria imbecilidade. Na guerra do homem contra a natureza, não há sobreviventes humanos. Edificaremos e industrializaremos, mas descobriremos tardiamente que não somos máquinas.

Publicado no jornal O Liberal em 27/8/19

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)