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A rica poesia hebraica

Um grande privilégio foi-me dado nestes dias, de escrever um breve comentário sobre o livro de Salmos. Leitor há décadas deste compêndio, cada vez mais surpreendo-me com a poesia hebraica.

Escritos antigos, alguns salmos datam de cerca de 1.000 a. C., coincidindo em grande parte com a vida do rei Davi, que viveu entre 1.000 e 930 antes de o calendário cristão. São textos de uma poesia riquíssima que, apesar de um longo processo de tradução para o grego, latim e português, ainda conservam ritmo e musicalidade, deixando transpirar a alma de seus poetas.

O paralelismo e a repetição são traços marcantes dessa grande obra literária da humanidade. Quando lemos em nosso idioma, muitas vezes não nos damos conta da métrica, da formação de estrofes e refrães. Inicialmente, apenas cânticos do templo de Jerusalém, os salmos evoluíram ao longo dos séculos para serem apreciados mais como texto, chegando a ganhar características proféticas, como preciosos registros da história hebreia e da religião monoteísta dos judeus.

Esse quê profético foi referendado pelo próprio Cristo em sua animada conversa com os caminhantes de Emaús quando, confortando-os acerca da trágica experiência contemplativa deles no sangrento Calvário, indagou se porventura não haviam lido o que do Messias haviam tratado o livro de Salmos.

A poesia dos salmos é rica de imagens. Metáforas espalham-se ao longo dos seus 150 hinos. É celebre, por exemplo, a beleza literária do Salmo 23, poema, aliás, que o próprio Jesus utilizou indiretamente na Parábola da Ovelha Perdida e ao referir-se a si próprio como sendo o bom pastor. Águas derramam-se no livro de salmos. Mananciais, fontes e rios molham suas páginas de emoção para quem aprecia essa pérola da literatura universal.

Classificados em vários grupos, temos salmos de sabedoria, didáticos, adoração, históricos, messiânicos e tantos outros gêneros. Um grupo muito especial se destaca entre os salmos 120 a 134, os conhecidos “Cânticos de romagem”, que os peregrinos a caminho de Jerusalém entoavam durante suas jornadas à Cidade Santa. Também chamados de “Cânticos dos Degraus”, estes salmos têm conteúdo além da literatura. Seus “degraus” fazem referência à geologia e ao relevo de Israel cuja formação gerou uma paisagem única, que leva os que descem à Jerusalém a partir do norte terem a impressão que a cidade está edificada sobre montes, quando, na verdade, é o vale do Jordão que mergulha abaixo até atingir um dos pontos mais inferiores da terra, o Mar Morto, situado cerca de 400 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo.

Os salmos são atlas de geografia e fontes primárias da história antiga. Por eles, estudamos linguística, numismática, ciência das moedas, arqueologia e tantos outros ramos importantes do saber. Comentando apenas treze salmos desta vez, sinto-me desafiado como um aprendiz de natação diante de um imenso mar. Vale a pena ler os salmos e guardá-los no coração. Palavras de vida e sabedoria aguardam seus leitores.

 Publicado no jornal O Liberal em 20/8/19

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)