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Vigia insone

5 de agosto, ontem, Vigia, nossa Pérola do Salgado, acordou sob o som das centenárias bandas União e 31 de Agosto. Pela manhã ainda cedo, vou comprar pão para o café. O caminho é muito conhecido. Saindo de uma casa na Vilhena Alves, estou no caminho da infância. Poucos passos, e subo a calçada do Vidêncio, antigo proprietário da lendária casa A Suburbana, calçada elevada do belo casarão de madeira toda trabalhada. Agora, não temos mais a casa. O maravilhoso jardim e o pomar daquela marcante propriedade estão tomados pelo mato, que aos poucos ganha força para tentar devolver à natureza nativa o que, certamente, em séculos perdidos já foi mata fechada.

Nasci aqui nesta quadra. Esta calçada era a passarela de onde eu contemplava tanta beleza. Foi aqui que ao longo da minha infância pensei e planejei muita coisa que hoje vivo. Logo, estou parado em frente da casa onde nasci. Olho para frente, e não encontro mais a antiga igreja batista, cujos portões de entrada do terreno lateral ostentava dois leões, as únicas “feras” que assustavam Vigia, exceto os maravilhosos dias quando o circo chegava à cidade trazendo leões vivos. Em cinquenta anos, quanta coisa mudou! No lugar dos batistas, no exato lugar, agora temos uma capela católica. Como o tempo muda o mundo, e nós muitas vezes brigamos de religião, sem saber que no mesmo terreno todos podem viver com o passar das gerações.

Mas, nem tudo é festa. Ando com muito cuidado, apesar da hora antecipada da manhã. Às sete, Vigia, que nunca dorme, já foi mais despertada ainda pelo ronco das motocicletas. As ruas estão devidamente sinalizadas, mas é como se as leis de trânsito não valessem neste pedacinho de chão salgado. Motoristas sem capacete correm em todas as direções. Motos carregam um. Dois. Três. Quatro. Quanto der. Crianças, velhos e jovens estão correndo a mil sobre esses cavalos de aço. Lembro dos leões de concreto, e agora reconheço o verdadeiro perigo. É uma loucura!

Bebés de colo correm acelerados. Não sabem ainda engatinhar, mas já voam. Não compreendem ainda os fonemas, porém, ficam ensurdecidos sob o ronco furioso de um exército de motociclistas sem capacete. Esses cavalos que trocaram o feno pelo petróleo parecem nunca cansar. Vêm de todas as direções. Tento atravessar a antiga rua da Perdição, famosa rua da minha infância, escura como as trevas de Plutão, onde casais de namorados podiam ficar à vontade, porém, tão cedo do dia, todo cuidado é pouco. Mão e contramão só existem nas placas.

Vigia contém hoje grande população imigrante. Os “pelhudos” parecem em extinção. Muito embora o livre transito no território nacional, é notório que a nossa Gurijuba atraiu gente à beça. Muita gente para saborear o maravilhoso tacacá da Teca, onde posso transbordar uma cuia grande do tucupi único desta linda terrinha. Muita gente! Muita gente, capaz de encher a igreja Madre de Deus e a arena Society Campeão toda hora, no gigante bairro Sol Nascente.

Bem, apesar dos pesares, a nossa velhinha sobrevive. Ontem, Vigia parou mais uma vez para lembrar que da música é a capital. Dia de festa. Feriado. Só falta o zelo pelo principal bem, a vida, que se equilibra perigosamente sobre duas rodas. Lembro dos circos, antigamente montados no festejado Espaço Cultural de hoje, e vejo que trapézios eram mais seguros. Vigia nunca dormiu, e agora agonia-se. Não dorme, mas gosta de silêncio. Não dorme, mas precisa andar com segurança nas ruas. Não dorme, mas não quer vigiense insone nem morrendo pelas feras cilindradas.

 Publicado no jornal O Liberal em 7/8/19

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)