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A pergunta do cardeal

O cardeal alemão Walter Brandmuller, um dos líderes da oposição ultraconservadora ao papa Francisco na Igreja Católica, criticou com veemência o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, marcado para outubro deste ano em Roma. Brandmuller classificou o evento de herético.

Em certo trecho de sua crítica, o cardeal diz: “Precisamos nos perguntar: o que têm a ver a ecologia, a economia e a política com o mandato e a missão da Igreja?”. Tal indagação espelha com nitidez o pensamento dominante por muito tempo no mundo cristão e expõe uma grave falta de compreensão do papel do homem, da importância do planeta e da pessoa do próprio Deus, conforme revelado pelas Escrituras.

É notório que, decorridos dois milênios desde a fundação da Igreja, a maioria esmagadora dos cristãos ainda parece não conseguir estabelecer um nexo claro e objetivo entre Deus, o planeta e o próprio Universo. Por muito tempo a Igreja Católica tentou manter a ciência sob rédeas curtas, apregoando, por exemplo, que a Terra era o centro do mundo, o geocentrismo. Isto tudo por falta unicamente de saber científico e por uma insistência em sustentar suas infundadas teses daquela época.

Ainda hoje, o Deus cultuado pelos cristãos não é identificado na prática de vida de muitos como sendo o próprio Criador. Criacionistas confessos – alguns sem base sólida – proclamam de púlpitos e altares que o mundo é obra das mãos divinas, ao mesmo tempo em que maltratam, desprezam ou simplesmente ignoram a obra do Deus em quem dizem acreditar. Maltratam animais. Desperdiçam água. Poluem e degradam o planeta.

A pergunta do cardeal alemão reflete também uma concepção arcaica de visão da própria natureza, segundo a qual a natureza precisava ser dominada, posto que uma inimiga mortal ao progresso da sociedade. A visão contrária é recente, obra do geógrafo Humboldt em seu clássico livro “A invenção da Natureza”. É essa arcaica visão que leva nossos pequenos agricultores queimar seus roçados, pensando que precisam se livrar do obstáculo da natureza, quando, na verdade, estão destruindo seu próprio terreno.

Ecologia tem tudo a ver com a missão da Igreja, pois se esta acredita que o mundo é obra das mãos divinas, deverá ser a primeira a gritar pelo respeito ao que Deus fez. E, ainda os cristãos evolucionistas, precisarão usar de bom senso no trato com o mundo, nossa grande casa.

Economia tem tudo a ver também com o mandato da Igreja. O “pão nosso” de cada dia depende da economia, depende da produção, depende de uma correta e justa distribuição de renda em qualquer lugar do mundo. A Igreja mão pode ser omissa lidando apenas com elementos de culto, sob pena de assumir o papel das figuras bíblicas do levita e do sacerdote que, vendo um pobre homem semimorto, passaram ao largo porque ajudar não lhes parecia missão de suas igrejas.

Neste contexto, não temos como ignorar que a Igreja também tem responsabilidade política, não devendo viver um tipo de evangelho onírico. Neste aspecto, é bom sempre lembrarmos a postura do apóstolo Paulo, que, tendo recebido um milagre de libertação das cadeias da prisão de Filipos, fez valer sua cidadania romana, obrigando que seus algozes viessem formalmente libertá-lo, mesmo depois do movimento de Deus e de anjos.

Publicado no jornal O Liberal em 9/7/19

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)