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Brasil, uma montanha de mortos.

 Semana passada, o Brasil ficou chocado com o homicídio do pastor Anderson do Carmo de Souza, no Rio de Janeiro. Chama à atenção a violência da execução pela quantidade de tiros e a mínima chance de defesa da vítima.  Chama à atenção um provável envolvimento da própria família. Mas, isto é um fato entre milhares.

Brasileiros são mortos diariamente como animais nocivos, sem piedade, com tortura, pelos modos mais brutais de execução. Desse universo, mulheres continuam morrendo aos montes, uma montanha de mortos no Brasil. Centenas. Milhares. Milhões nas últimas décadas. Atrevi-me a olhar outros mortos. Quase sempre olhamos as vítimas inocentes das emboscadas, dos latrocínios e das mortes acidentais. Porém, eu quis olhar também o outro lado. Olhei detidamente corpos de assassinos, de “monstros” e de tantos que sucumbiram transgredindo a nossa lei. E confesso que fiquei igualmente chocado. São dois, são cem, são mil. Inertes jovens no solo, detidos por um projétil certeiro no coração, semblante de alguém que veio e foi e não sabe por quê. Matou e terminou morto. Não matou, mas morreu também.

             A nossa visão de violência pode estar prejudicada. Não morrem apenas mocinhos. Não morrem somente inocentes, bandidos morrem também. E quando morrem, espalha-se o mesmo germe, pois a lei de talião continua em pleno vigor no Brasil. Precisamos olhar o contexto. Não morrem só delinquentes nem cidadãos comuns do bem. Morrem também os que trabalham contra a morte. Policiais. Agentes.

             Não podemos tratar a violência como algo reativo. Não podemos seguir ignorando o outro lado. A defesa de uma sociedade está em sua harmonia. Não adianta sair matando quem nos mata. Não adianta apenas revidar. Leis, penas e prisões: eis algo paliativo, intimida, mas não cura. Esconde a realidade atrás das grades. A situação brasileira é gravíssima, mas isto é contextual.

             Brasil, uma montanha de mortos. Sangue não tem antecedentes criminais. Fora do corpo, significa morte. Morte significa perda. O Brasil está perdendo os seus filhos. Perde aqueles que conseguiram escapar do crime. Perde precocemente outros, classificados como agentes delituosos. Isto é causa e efeito. Ação e reação, omissão principalmente. Cresce essa montanha de mortos.

             Nenhum estudioso de criminologia pode ignorar o massacre brasileiro. Jorra o nosso sangue, vejam alguns sangue do bem, vejam outros sangue do mal. Classificações tolas e vãs. O sangue é bom por si mesmo. No corpo é vida. Fora dele, morte. É o sangue do nosso povo que está sendo oferecido diariamente nesse altar satânico da violência. Uma sede insaciável. Eu não posso aceitar. Você não pode aceitar.

             Um milhão e tantos mil mortos em apenas trinta anos neste Brasil. Uma nação inteira perdeu a vida. Quem morreu? A nossa sociedade, de todas as classes e ocupações. Bandido mata bandido. Polícia mata bandido. Bandido mata a polícia. Isto é o nosso sangue, sangue verde e amarelo. Sangue católico, espírita e crente. Jorra o sangue brasileiro, esta é única leitura.

             A situação brasileira é tão grave que os governos precisam criar algum mecanismo de reversão. Armar a população pode significar a desgraça final. Muitos morrerão pela própria arma. Profissionais do crime são hábeis, não dá para nivelá-los em ação e reação. A sociedade precisa ser chamada à consciência de seu estado de morte. Quem detém conhecimento de defesa, precisa repassar isto para as pessoas. É preciso levar o debate para as comunidades e para cada sala de aula. É um plano de emergência e ao mesmo tempo uma necessidade de trabalhar essa questão a médio e longo prazo. É o sangue brasileiro que está jorrando. Não são estrangeiros que matam e morrem: é o nosso povo, sem importar se agente ou vítima, eis a leitura precisa desta montanha de mortos.

Publicado no jornal O Liberal em 2/7/19

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)