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Ética, moral e santidade

O Brasil católico se prepara para mais uma santa. Irmã Dulce, como ficou conhecida a famosa religiosa baiana, será brevemente elevada aos altares. Sempre que isto acontece ao redor do mundo, lembro da admoestação bíblica: que todos os cristãos devem ser santos, isto é, separados do mundo de valores depreciativos de cada geração.

Algumas vezes, pensamos que a santidade tem a ver apenas com valores espirituais, separados deste mundo, valores elevados, pertencentes a uma esfera de vivência transcendental típica da vida em espírito. Assim, pessoas declaradas “santas” pelo catolicismo podem ser compreendidas quase como supra-humanas.

Todavia, quando analisamos amiúde o conjunto de valores que compõem a santidade reclamada de tais pessoas, não nos distanciamos sobremaneira da superfície da Terra. Não obstante o critério da exigência de “milagre” atribuído a candidatos ao posto máximo do universo católico, naturalmente tal critério não trabalha sozinho, mas em conjunto com outros valores.

Dentro desse conjunto que integra a santidade, temos valores como honestidade, pureza, simplicidade, desapego de bens materiais. Temos o compromisso pela verdade, o valor da palavra, a consciência, por fim, informando o que somos à vista de terceiros e secretamente em nosso espírito.

Logo, concluímos que a santidade não tem tudo a ver com a religião, concluímos que integridade de vida é um conceito mais amplo, capaz de se fazer presente até mesmo em pessoas que se declarem ateias. É assim que é possível que um ateu seja mais “santo” que certos nominados crentes.

Falta ao Brasil este caráter dos santos. Falta ética, zelo pela palavra, altruísmo. Falta sinceridade. Isto é uma constatação cogente mesmo nos círculos religiosos. O Brasil, por exemplo, ufana-se de ser o maior país católico, ufana-se também de ter uma elevada percentagem de evangélicos. Entretanto, é patente a pobreza de valores morais e éticos em grande parte do segmento.

Não obstante a existência de pessoas que tenham tido uma elevada ligação com Deus, o que mais marca a sociedade não é o milagre, mas o testemunho; não é a santidade pretérita, mas presente. No meio evangélico, por exemplo, você não visitará uma só igreja sem que encontre relatos de estupendos milagres. Apesar disto, o testemunho de vida nem sempre anda junto.

Na verdade, a religião erra quando espiritualiza demais o mundo e as pessoas. Deveríamos não dar muita atenção no tipo de vida secreta que o crente tem com Deus. Devemos prestar atenção mesmo na porção de santidade que toca o mundo, a santidade que influencia pessoas. Foi isto que Jesus pôs em evidência quando setenta discípulos regressaram de certa evangelização. Foi isto que ele ensinou quando ordenou que a nossa luz brilhe diante dos homens.

Precisamos destes santos vivos no Congresso Nacional, quem sabe um tipo santidade que Bolsonaro reclama quando replica texto sobre um “Brasil ingovernável” sem conchavos. Precisamos desta mesma santidade no presidente, no Supremo, na vida de cada agente público, cada empresário e trabalhador do País. Nem precisamos subir ao altar. Nem precisamos da religião. Ainda que alguns sejam ateus contemporâneos de crentes fervorosos, o que muda este mundo para melhor são os elementos da ética e da moralidade. Assim, seremos uma nação santa.

 Publicado no jornal O Liberal em 22/5/19

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)