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Nação plural

O Brasil segue rumo ao desconhecido. Desde primeiro de janeiro, estamos vivendo uma massificação de ideologias. Quem pensava que isto era assunto apenas da esquerda, agora descobre uma direita que respira ideias. O grande perigo é que essas ideias estão prontas, são fruto de uma cabeça ou de poucas.

A dialética parece morta. É notória a dificuldade que o governo tem de articular, de ouvir, de mudar de ideia por força de um processo mental próprio. As mudanças drásticas de opinião e de comando tem vindo por pressão política, jogo do mercado até. Não decorrem tais mudanças da reflexão, da ponderação, do exercício da filosofia.

Aliás, falando em filosofia, a semana passada foi sacudida com notícias de ameaça de redução de verbas e até de extinção de alguns cursos nas áreas de humanas, notadamente Filosofia e Ciências Sociais. Sob a justificativa que o País deve concentrar esforços em tecnologia, apregoa-se a inanição e morte do que não produz lucro no modelo capitalista. Isto é inaceitável.

A religião, por sua vez, comparece na história do mundo como fundamento de muita coisa nefasta. Comparece também agora no presente governo. Valores e liberdades individuais são inegociáveis. Pessoas são diferentes e devem ser respeitadas a despeito de se encaixarem ou não em nossos modelos de fé. A religião não deve ousar ser superior à Divindade, pois se Deus dá a vida a todos e tolera os nossos erros, haverá a Igreja e outras instituições análogas de serem humildes para aceitar o que não podem mudar.

Tudo nos mostra que estamos sendo governados por uma ideologia. E toda ideologia que não dialoga com a sociedade é perigosa. Uma nação é plural. Em matéria de fé, por exemplo, o Estado é laico para que sirva bem a crentes, ateus e livres pensadores. O Estado não tem religião. É um absurdo que a fé se aproxime do governo para tentar governar. É um absurdo que se aproxime do Estado para outros fins alheios à essência do Evangelho, qual seja a justiça social e o zelo pela ética e pela moralidade.

Nossa democracia está sendo desmontada diante dos nossos olhos. Todo dia, uma peça é retirada. Cada dia, o Brasil deixa de ser um colegiado para se amoldar ao pensamento ideológico dominante. Nesse cenário, a quebra de instituições é importante. A ruína de uma suprema corte é a vitória do autoritarismo. A ruína do parlamento cala vozes divergentes e deixa a Nação em uníssono sombrio e doente.

Todo governo democrático precisa entender que foi eleito para reger uma orquestra preexistente. Instrumentos soam diferente. Ninguém tem a cabeça do maestro. Numa orquestra profissional, todos são graduados, não apenas o regente. Alguns alunos até dominam mais algumas áreas da música, porém, submetem-se à direção. Estar assentado tocando um instrumento não pode ser lido como incompetência do componente do grupo. Existe um acordo social em execução.

O presidente da República é o grande regente do País, todos sabemos. Porém, assim como numa orquestra, a Nação precisa da diversidade de suas figuras. É preciso respeitar conhecimentos de terceiros. Governar democraticamente requer humildade para reconhecer talentos. O desafio de quem lidera é somar valores, agregar. No caso do Brasil, já temos a nossa ideologia, ela chama-se democracia, algo que se constrói e se conserva no dia a dia a partir das mínimas coisas.

 Publicado no jornal O Liberal em 30/4/19

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)