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A Páscoa de Judas

Quando o missionário Dom Richardson, autor do best-seller “O Totem da Paz”, foi evangelizar uma remota tribo no Pacífico, jamais podia imaginar que sua pregação surtiria um efeito tão contrário. Depois de árduo trabalho para aprender o idioma nativo, os ensinos começaram com uma síntese da vida e ministério de Jesus. Tudo ia muito bem. A cada dia, crescia o interesse em torno da pessoa de Cristo, até que o inimaginável aconteceu.

Chegando ao período da Páscoa, de forma dramática, Richardsom apresentou o traidor Judas Iscariotes. Era o ápice da narrativa. Todavia, foi exatamente nesse momento que o missionário notou que algo devia ter saído muito errado. Os olhos do povo brilharam com a façanha de Judas. Como ele pôde ter enganado o Filho de Deus? Se Judas fez isso, dentro de uma cultura que elevava a traição ao ápice das virtudes, o apóstolo era quem agora se tornara digno de admiração e culto.

Tenho acompanhado o entusiasmo com que muitos tratam a Jesus e a “Judas” no período da Páscoa e percebo que, a cada ano, Jesus parece tornar-se a figura secundária. Pelas redes sociais, importante vitrine de nossa mentalidade, vejo que a obra de Jesus e suas virtudes não detêm o mesmo espaço ocupado pela malhação de judas. Cristãos silenciam durante a Semana Santa no aguardo do sábado, quando então não poupam tempo e energia para encher as mídias sociais com o nome do Traidor.

Naturalmente, essa mudança de polo tem várias facetas. Inicialmente, penso que é mesmo um reflexo direto da pouca compreensão e valorização que muitos propalados cristãos têm da pessoa e obra de Cristo. Segundo, essa ênfase exagerada ao aspecto da traição por meio dos “judas” é um tipo importante de manifestação social. Nenhum governo deve ignorar. Nenhum segmento, nem mesmo a Igreja.

A malhação de “judas” extrapola os limites da religião. Agora, Judas Iscariotes passa a representar todo aquele que, tendo o dever de tratar bem o povo, foge de seu papel, “traindo” a comunidade. A malhação de “judas” é uma clara linguagem não verbal que exterioriza a insatisfação popular, é uma sátira que expõe a hipocrisia de tantos. É um choque da ética e da moralidade contra os desmandos do poder, sejam políticos, econômicos e até mesmo eclesiásticos, como referimos. Mas, não é só isto.

A ênfase na figura de Judas em detrimento dos ensinos de Cristo denota que muitos cristãos transitam na periferia da verdadeira fé e não compreendem também a importância que têm na construção e reconstrução do mundo. Tendo a semana sete dias, muitos deixam de referir os ensinamentos de Jesus durante a maior parte do tempo, deixar escoar a pessoa de Cristo ao longo da Semana Santa, propriamente dita, e preferem criticar, apresentando uma forma reversa da mensagem do Evangelho.

Uma leitura deste público nas mídias sociais encontrará cristãos em quase sua totalidade. Justamente aqueles que deveriam semear a paz e o perdão são os que comparecem no sábado de aleluia com as mãos cheias de pedras, julgando que mudarão o mundo apenas criticando os que dizem proceder mal.

Numa visão macro desse mesmo público que valoriza tanto a malhação de judas – evento, aliás, que não faz parte da cultura protestante -, vamos encontrar uma maioria evangélica e uma percentagem menor de católicos. Nessa visão macro vamos também perceber que esse mesmo público parece sempre predisposto a justificar atos de violência e tragédias naturais em nome de Deus, um tipo de Deus vingativo, de prontidão para punir “desobedientes”, “traidores” políticos e “ímpios” através de executores e mandantes de crimes bárbaros e até por meio da natureza. Afinal, de quem é a Páscoa? A Páscoa é de Jesus ou de Judas?

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)