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Bolsonaro e a questão de Israel

A ligação da religião com o Estado é coisa antiga que remonta ao passado mais longínquo. Em tempos imemoriais, a ignorância do ser humano acerca de aspectos naturais do mundo levava-o a atribuir muitos fenômenos às divindades. Na Antiguidade, havia deus para tudo, para o amor, para a guerra; deuses de paz e de ódio, deuses da colheita e da fertilidade, deuses do fogo, da água e do trovão.

A organização primitiva do Estado passava necessariamente pela religião, afinal de contas, como dissemos, somente um deus forte garantia um estado prevalente. Por causa disso, quem lidava com a organização da sociedade, quem governava precisava também ser o chefe supremo da religião. Operava-se então o auge da miscigenação entre fé e política, sendo muitas vezes o governante também uma encarnação da divindade maior, a exemplo do Egito e dos babilônicos.

Os tempos modernos trabalharam pela separação dessas duas esferas. “A César, o que é de César”, ponderou Jesus Cristo, que se proclamando o Messias, tratou logo de alijar se si todo resquício da velha mistura. Sendo o Filho de Deus, o Nazareno trilhou um caminho longe do panteão romano, que tinha César também como divindade. Agora, Bolsonaro insiste em voltar à velha prática.

Faz dó ver um governo alijar-se a um estado em nome da religião. O Brasil é laico e laico deve ser também todo movimento da República. Querendo repetir a predileção americana por Israel, nosso governo trilha um sombrio caminho de segregação de outros povos. Não compete ao Brasil escolher Israel e rejeitar palestinos. Toda relação governamental deve ser política, jamais religiosa.

É lamentável esse fundamentalismo do governo. Com isto, não estou pregando ódio contra Israel. Porém, não podemos viver com a cabeça numa leitura bíblica de quatro ou cinco milênios. “Abençoar Israel” não significa desprezar, muito menos provocar nossos irmãos palestinos. É preciso saber que a história contemporânea de Israel não contém mais o romantismo bíblico acerca do povo judeu. Israel também, persegue, defende-se, segrega. Em jogo, estão milhares de vidas, inclusive muitas crianças.

O fundamentalismo que exclui as demais nações não encontra respaldo no ensino do Cristo. Jesus não nos ensinou isto. Aliás, é preciso saber que Jesus não endeusou Jerusalém nem o Templo. Ao contrário das orações antigas, que muito enalteciam os patriarcas, a Cidade Santa e o santuário, o Messias ensinou que sua mensagem não está alicerçada em tradições, por isto a atenção do crente não deveria mais estar em Jerusalém, mas nos Céus, sendo o vocativo de Abraão substituído pelo “Pai nosso”, nosso, de todos os povos.

Essa hermenêutica de Bolsonaro repete em escala mundial alguns dos erros mais grosseiros de seu governo. Não se governa para o bem armando a população. Não se governa para todos facilitando a prática de infrações de trânsito, tampouco tentando negar a história dos que sofreram pela falta de liberdade em nosso país. Não posso esquecer, por exemplo, quanto sofri enquanto aluno e depois professor na UFPA, comparecendo a uma aula de manhã e à outra de tarde, sem classe única, sem uma programação transparente do corpo docente para determinado semestre, porque, querendo evitar que pessoas reunidas formassem vínculos e questionassem o governo, o MEC pulverizou alunos e professores, fazendo que migrassem de sala em sala.

Bolsonaro e seu guru espiritual Silas Malafaia precisam reler a Bíblia, começando pelo Novo Testamento, cujo texto, não obstante o decurso de quase vinte séculos, é o que temos de mais contemporâneo em matéria de fé e Estado.

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)