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A nova medicina interativa

Vivemos um período de transição na área da saúde quando muitos médicos deixam ou sonham em deixar de atender planos de saúde. No meio desse imbróglio, quem sofre é o paciente e seus familiares. Foi-se o tempo em que planos de saúde eram referência de bom atendimento em consultórios. Não faz muito tempo que pacientes e médicos suspiravam por um plano de saúde. Agora, parece que ambos desejam livrar-se de alguns deles. A cada dia, torna-se mais difícil encontrar-se bons profissionais dispostos a atender por meio do frio cartão magnético dos planos. Hoje, prevalece o pagamento em espécie. Então, vivenciamos um processo. Nesse processo, profissionais de ponta seguem hoje com seus honorários aparentemente estabelecidos pela categoria específica através de grupos em redes sociais. Cada especialidade tem um preço de consulta. Médicos assim vivem bem com o seu quinhão, empregando o conhecimento mediante uma justa remuneração. Mas, a coisa não para aí: tais profissionais também ganharam mais encargos. Todo médico que quiser atender exclusivamente mediante pagamento em seus consultórios, precisa saber que existe um preço para essa escolha. Esse preço é dar um atendimento cada vez mais personalíssimo à sua clientela. É assim que médicos precisam urgentemente atualizar a forma de lidar na relação paciente/família. A comunicação precisa ser estreita, não devendo ser quebrada, salvo as necessidades de cada um. Essa corrida à cobrança de consultas particulares não pode jamais vir desprovida de um excelente canal de comunicação com o paciente e seus familiares, quando necessário. Para facilitar esse contato, utiliza-se muito hoje os aplicativos, a exemplo do WhatsApp. No momento em que a relação médico-paciente dispensa a mediação dos planos de saúde, o profissional passa a assumir definitivamente a responsabilidade pela situação do seu cliente. Todavia, a grande questão é o trânsito entre a permanência nos planos de saúde e a decisão – e a possibilidade de não dar certo – para o consultório particular. Parece-me que o maior prejuízo para o paciente está nessa zona de transição. Assim, enquanto alguns bons profissionais há muito já resolveram gerenciar suas consultas – e estão felizes pela decisão – nota-se que há tantos outros insatisfeitos querendo migrar, mas sem coragem ou temendo qualquer outro empecilho. A título de exemplo, citamos alguns pediatras, que, embora tentem praticar uma medicina interativa atendendo planos de saúde, acabam falhando terrivelmente com seus deveres profissionais. Esta semana acompanhei o caso de uma criança de um ano em Belém que foi atendida desde recém-nascida por determinada médica e, vindo o paciente adoecer com certa gravidade por um período de um mês, recebeu da profissional a repetida orientação de que a mãe procurasse uma emergência. Acompanhei o drama dos pais dessa criança que, migrando de emergência em emergência, ouviram de um médico plantonista: “Quem é o médico dessa criança? Esse menino precisa ser acompanhado por um clínico”. Ocorre que a digníssima pediatra simplesmente ignorou o drama de seu próprio paciente, repito, médica que acompanha o bebê desde recém-nascido. Profissionais assim não servem, pois, se demonstram lidar apenas pelo bônus, não se darão bem de igual modo quando migrarem para a consulta particular. E, se ali, mudarem totalmente também de postura, estará em jogo algo bem acima do direito, o profissionalismo, o comprometimento com a vida que devem ter para com todos. E, como a verdade interior é luz que não se pode esconder do mundo, logo seus novos clientes mudarão de médico.

Rui Raiol é escritor.

Site: www.ruiraiol.com.br