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Mundo xifópago

A luta de Donald Trump para construir um muro que blinde os Estados Unidos do México parece ignorar o básico em matéria de mundo: não estamos sozinhos no planeta, mas fazemos parte de um intrincado sistema.

            Ar, terra e mar. Estamos ligados uns aos outros no mundo umbilicalmente, assim como gêmeos xifópagos têm duas cabeças, porém, vivem presos por um tronco comum. Pensar diferente é ficção política, é olhar para o chão e achar que a terra é nossa, é imaginar que a água que corre dentro e à margem do nosso país é um tanque particular. É pensar que a atmosfera sob o firmamento é porção territorial demarcada pela natureza.

            Não precisamos de muito esforço para concluir que as nossas fronteiras políticas são nada perante a natureza. Alguns minutos de decolagem, e já não vemos mais nada, sobrevoamos cidades, estados e nações sem conseguir identificar essas linhas imaginárias convencionadas entre os povos ou demarcadas através da força e do medo.

            Somos nações xifópagas, todas as nações do mundo. Interdependentes. A terra que tanto orgulha ditadores não lhes pertence. As águas que banham a Coreia do Norte correm para o sul e distribuem-se para o oceano de todos. O ar que respiramos é o mesmo. Mais pesado aqui, mais puro ali, vivemos todos dentro dessa grande bolha. O céu, que às vezes imaginamos estático, move-se toda hora sobre as nossas cabeças. Além da rotação e da translação, nosso planeta executa mais de uma dezena de outros movimentos. Todos viajamos a milhares de quilômetros por hora nesta nave chamada Terra.

            Acredito que as Nações Unidas deveriam avançar para impedir que seus países participantes executassem um nefasto projeto como o de Trump. Afinal de contas, não apenas mexicanos cruzam a fronteira americana. O ar, a chuva, as águas do solo e do subsolo também desconhecem nossos caprichos. Animais ignoram fronteiras, migram naturalmente de um canto a outro sem essa preocupação. Loucura essa ideia do republicano!

            Somos nações xifópagas. Pensamos diferente, temos regimes políticos variados, todavia, o tronco é o mesmo. Estamos vitalmente presos uns aos outros. A cerca é a invenção humana que fez nascer a propriedade. Nada é nosso, nem pessoal nem coletivo. O mundo que nos recebe cercados ou desprovidos de bens seguirá o seu curso depois da nossa morte. Somos pó, e a ele voltaremos, como diz o Livro Santo.

            Neste mundo xifópago, o que fazemos para o nosso país vizinho voltará para nós mesmos. Se fizermos o bem para o ecossistema, seremos recompensados. A natureza não conhece segregação. Ela reage ofensivamente para defender o próprio mundo. Esperamos que o muro não saia, isso não é um estado de emergência. Emergência é educar e investir em segurança preparada para viver esta realidade xifópaga.

 

Rui Raiol é escritor

 

Site: www.ruiraiol.com.br