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Boechat e a imprevisibilidade da vida

Enquanto me preparava para escrever a coluna, fui surpreendido pela notícia do trágico acidente que vitimou Ricardo Boechat, ontem, em São Paulo. Logo não encontrei pauta melhor, senão falar sobre a imprevisibilidade da nossa vida.

Há pessoas cuja despedida é brusca, algo sem uma fronteira entre a vida e a morte, estão aqui e, de repente, foram. Isto nos remete imediatamente à falibilidade parcial dos projetos humanos, leva-nos a refletir sobre o que de fato somos neste mundo.

Boechat foi um homem de grande influência. Gostava de ouvi-lo dissecar temas dos mais diversos da sociedade brasileira, parecendo muito natural em suas convicções. Era simples. Não tinha vergonha, por exemplo, de confessar suas dificuldades com a língua inglesa, classificando-se como um “turista latino”.

Ao passo que uma pessoa, sadia, da envergadura de Boechat parte dessa forma, muitos doentes graves sobrevivem. É assim que de repente algum de nós amanheceu lamentando o dia por algum motivo. Reclamamos muito, murmuramos, mas somos privilegiados.

Descontada a nossa produção neste mundo – àqueles que produzem algo – e outras obras classificadas pelo ângulo social e espiritual, somos mesmo um corpo, uma porção de matéria. É assim que costumo me pesar para no final dizer: “Eis aí: 68 quilos! É isso que sou”.

Numa análise mais fria e realista, é exatamente assim: somos uma porção de matéria, uma bola de carne que não resiste ao fogo, uma bolha que não sobrevive alguns minutos sem ar, frágeis, fragilíssimos. Todavia, a nossa cabeça muitas vezes pinta um quadro fantasioso. De repente, somos o que conseguimos pensar e produzir, somos o que temos, o que outros dizem sobre nós etc. Ilusão!

Feliz é quem vive intensamente, assim como Boechat parecia viver sua vida profissional. Intrépido. Ao assisti-lo na cadeia diária entre rádio e jornal, identificava-me sobremaneira com o jornalista. Boechat era corajoso, como um apologista da lei, parecendo-me às vezes assumir a voz que tímidos e comprometidos ministros religiosos brasileiros calaram. Era um show!

Nossas orações pela família de Boechat e dos pilotos mortos. Uma importante voz calou. Que pena!  Precisamos tanto dessas vozes neste segmento conturbado da história brasileira. Infelizmente, é bem provável que algum pastor herege levante-se de seu trono corrompido de ouro para suscitar um castigo divino. Vai em paz, Boechat, você cumpriu muito bem o seu papel.

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)