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O nosso desafio “Suzane Richthofen”

O caso Richthofen, como ficou conhecido o assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen, executado pelos irmãos Cravinho com a participação da filha do casal, Suzane, na fase preparatória do delito, constitui um dos crimes que marcam a história do Brasil.

Desde que foi condenada em 2002 a 39 anos de prisão, Suzane tornou-se um símbolo do modo como a sociedade brasileira reage a um crime tão cruel, no caso, o parricídio. Muito embora o Código Penal não tenha tratamento específico a esse delito, suas agravantes do art. 121 são utilizadas em nível máximo, enquanto no Cível a conduta pode levar à deserdação.

Mas, a resistência em aceitar que Suzane deve ser tratada nos limites da lei é o que me intriga. Desde que Suzane foi sentenciada, existe uma repulsa social exagerada à jovem. Embora Suzane seja considerada de bom comportamento na prisão e tenha recebido o benefício da progressão do regime, nada parece calar um certo desejo de vingança social.

Bem, todos concordamos que Suzane cometeu um gravíssimo crime, mas, o que fazer agora? De acordo com o nosso ordenamento jurídico, não temos pena de morte nem prisão perpétua. Assim, todo condenado deve ser tratado no limite de sua condenação. Suzane deve seguir sua vida. Se a sociedade condenou alguém por um crime – e essa pena está sendo cumprida – então chegamos ao limite do que se pode exigir de uma pessoa.

Minha estupefação aumenta mais ainda quando vejo opiniões de pessoas declaradas cristãs. Mídias sociais estampam ódio e desejo de vindita contra Suzane. Temos uma religião na igreja e outra nas ruas. Temos uma Bíblia para nós e outra para o próximo. Temos uma pregação retórica sobre o perdão de Deus, sempre disposto a aceitar quem erra, porém, alguns selecionam que está fora desse perdão.

Suzane é um desafio para muitos. É o desafio de aceitar os limites da lei, o desafio de permitir que, mesmo cometendo os piores erros, todos nós temos direito de seguir vivendo, seja livre, seja preso. Juridicamente, tendo um condenado cumprido sua pena, ele pagou sua dívida social.

O desafio “Suzane” está posto diante de nós como uma provação, um tipo de elemento que nos desafia a reagir perante situações que excedem em muito ao que podemos aceitar. O desafio consiste em aceitar a aplicação da lei, consiste em permitir que outros sejam tratados como nós mesmos gostaríamos de ser em situações análogas.

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)